Resenhas

O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago

19 de julho de 2015

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O Evangelho Segundo Jesus Cristo é reconhecido como uma das grandes obras da literatura universal. Foi escrito pelo renomado autor português José Saramago e publicado pela primeira vez em 1991. A edição da Companhia das Letras está belíssima e destacou ainda mais a sensibilidade dessa obra!

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Há muito tempo venho ouvindo pessoas falarem maravilhas sobre esta obra e me mordendo por dentro por ainda não ter lido, até que enfim, eu li! Como a maioria das pessoas, eu tive que empacotar a minha crença religiosa e colocá-la de lado para encarar esse livro como uma literatura comum, e como não uma “oposição” as crenças da Bíblia. Mas calma, minha religião continua aqui intacta e perfeita, isso não me impediu de apreciar todos os méritos dessa obra e nem vai impedir você.

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A princípio tive que me acostumar com a escrita do Saramago, este foi o primeiro livro que li do autor (morria de curiosidade) e não sabia que as edições brasileiras mantinham o livro em português de Portugal, o que por sinal eu adorei, mas conta pra mim o que é um caravançarai? (risos) Termos em português de Portugal misturados a antigos termos usados no Oriente Médio e uma narrativa sem travessões  realmente podem bagunçar a cabeça do leitor, mas calma que tudo isso vale a pena!

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A narrativa do Saramago é completamente incrível, do tipo que você para a leitura para apreciar. Ele faz descrições das situações, dos locais, das paisagens naturais, do tempo, dos personagens, de praticamente tudo, de forma extremamente detalhista e sensível, transbordando delicadeza e sentimento. Depois do choque inicial dos primeiros dois ou três capítulos, eu já me vi apaixonada pela escrita do autor e não senti a menor falta do português do Brasil ou dos travessões, tudo pareceu fazer muito mais sentido da forma que o Saramago fez. A narrativa é poética e simplesmente linda.

O filho de José e de Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo. (Pág. 65)

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O autor faz uma reinterpretação da história mais conhecida do mundo: a vida de Jesus Cristo. Eu jamais pensei que uma das histórias mais lindas poderia ser recontada de uma forma tão diferenciada e igualmente bela como Saramago fez. A narrativa é em terceira pessoa e ele começa o livro descrevendo a vida de José e Maria bem antes da concepção de Jesus, o autor nos apresenta personagens completamente desmistificados e mundanos, repletos de falhas, medos, sentimentos e influências do meio. A história de Jesus Cristo é a mesma de sempre, contada desde a concepção até a crucificação de Cristo, porém Saramago distorce os evangelhos de forma a trazer a história o mais próximo possível da realidade do leitor mostrando um Jesus mais humano e passível de erros. Por incrível que pareça a escrita do autor torna tudo mais verossímil para o leitor preenchendo as lacunas supostamente deixadas na Bíblia. Apesar de manter um olhar cético no livro, o autor teve todo o cuidado ao lidar com a crença religiosa, especialmente ao retratar Deus, preocupando-se em não ofender quaisquer crenças. Suas críticas são sutis e disfarçadas em forma de ironia, sempre levando a ideia de que é permitido ao leitor questionar-se, buscar respostas e refletir sobre a nossa condição existencial sem que isso interfira na sua fé.

Pois já se sabe que as palavras proferidas pelo coração não têm língua que as articule, retém-nas um nó na garganta e só nos olhos é que se podem ler. (Pág. 331)

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O leitor precisa estar livre de amarras religiosas para ler O Evangelho Segundo Jesus Cristo, pois só assim poderá aprecia-lo como uma obra de literatura como outra qualquer, independente de suas crenças. A história é linda, maravilhosamente bem escrita (sem comparação, gente) e o leitor termina o livro sentindo-se ainda mais próximo dos personagens, pois entende e compadece de suas dores, medos e dúvidas, de forma natural e humana. Eu não senti que o livro ofendeu minhas crenças de forma nenhuma, muito pelo contrário, admiro a audácia, sensibilidade e inteligência do autor para reescrever uma das histórias mais belas já escritas. Não tenha receios de ler por esse motivo, pois fé nenhuma pode ser abalada por uma obra de ficção. Sei que tem pessoas que não o leriam apenas pelo fato de contar uma história religiosa, mas antes de mais nada, este é um livro maravilhoso independente de qualquer crença ou religião, e é ainda melhor para aqueles que gostam de pensar “outside the box“, refletir sobre as possibilidades e questionar verdades universais. Recomendo fortemente a leitura.

IMG_7027Este exemplar foi gentilmente cedido ao blog pela editora Companhia das Letras.parceria-ciadasletras
Editora: Companhia das Letras
IBSN: 9788571642096
Gênero: Ficção/Romance
Páginas: 445
Adicione: Skoob
Minha avaliação:★★★★★

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  • Ali Pita setembro 3, 2017

    Olá Jú
    Gostei imenso da resenha, a interpretação que fazes da obra é muito eloquente. Ouvi falar da obra e decidi pesquisar um bocado e acredito que já estou preparado para a ler, pois a fé já se encontra embalada 😁. Mas já dá para perceber o ápice da obra.
    Parabéns ☺

  • Nay julho 28, 2015

    Adorei sua resenha, Ju! Li recentemente O Ensaio Sobre a Cegueira (até falei resumidamente lá no blog sobre) e seguramente foi um dos melhores livros que já li, analisando a obra como um todo. A escrita do Saramago não foi tão fácil assim de acostumar pra mim, confesso que acabei demorando muito mais do que o esperado para terminar o livro justamente por isso… Mas a história é tão magnética que não tem como desgrudar, acredito que seja também o caso de O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Já está na minha lista!

  • Ricardo Balsinhas julho 26, 2015

    Olá!
    Este é o primeiro comentário que faço aqui!
    Então, posso dizer que sou português de Portugal e que só li um único livro de Saramago: Memorial do Convento, que foi leitura obrigatória da escola e que amei o livro passando a ser um dos meus favoritos.
    Aconselho a ler o Memorial do Convento, pois foi este o principal livro que lhe concedeu o Nobel!
    Fico feliz por saber que a literatura portuguesa também está presente no outro lado do atlântico, e espero que um dia também possa ter algum livro publicado no outro lado do mundo.

    P.S.: Adoro o Nuvem Literária!

  • Monalise julho 21, 2015

    Estou apaixonada por José Saramago. Amei sua resenha e estou acompanhando o canal. Obrigada.

  • Daniela julho 19, 2015

    Oi Ju

    Estou com vontade de ler esse livro a muito tempo e ao ler sua resenha fiquei com mais vontade ainda.
    Adoro você!

    Beijos

  • Silvia julho 19, 2015

    Não sei como o livro repercutirá na minha, já abalada, fé. Também venho tendo vontade de ler esse livro há tempos. Tua resenha foi o gás que precisava para isso: próxima leitura com certeza!!!

    • Juliana Cirqueira julho 23, 2015

      Eu faço ideia de como repercutirá, amiga. Rs.
      Eu adorei a leitura e também tenho um ponto de vista parecido com o seu, meio caótico, sobre a religião em si. Acho que é um tipo de livro que você gostaria muito. 🙂

  • Nise julho 19, 2015

    Ju, o que eu mais adoro em seu blog, além das suas resenhas, são estas fotos DI-VI-NAS que publica dos livros.

  • Camila julho 19, 2015

    Oi, Juliana!

    Esse é o meu livro favorito do Saramago depois de “As Intermitências da Morte”. O livro é audacioso, disso não há dúvidas, tanto que Saramago acabou tendo que lidar com críticas não muito amigáveis de uma parte da igreja católica em Portugal, mas isso acabou tornando o livro ainda mais interessante pra mim, haha.

    Eu acho que Saramago é um dos melhores autores da língua portuguesa de todos os tempos, e o lirismo da obra dele é o que mais me encanta. Lendo Saramago eu tive o meu primeiro momento de “epifania” literária e, por isso, sempre vou ter um carinho mais que especial por ele.

    Seu blog é lindo! Parabéns.

    Um beijo,

    Camila.

    • Juliana Cirqueira julho 23, 2015

      Oi Camila! Tudo bom?
      Eu preciso ler As Intermitências, todo mundo fala maravilhas desse livro! Eu fiquei sabendo dessa polêmica toda, acho inclusive que foi bem estranho, pois não acho que o livro faça nenhuma apologia contra a igreja, etc. E literatura é literatura, é ficção. Também concordo que isso tudo acaba atraindo muito mais atenção para o livro, hehe.
      Também fiquei encantada com a escrita do autor! <3

      Muito obrigaaaada! <3 hihi
      Beijos.

  • Elaine Matos julho 19, 2015

    Eu li este livro há mais ou menos uns dois ou três anos e até hoje ele ainda está bastante recente em minha memória. É um livro que merece ser lido por todas as pessoas, como você disse, independente de crença, pois é uma obra literária e quando estamos diante de uma obra tão importante, é preciso desfazer dos preconceitos para refletir sobre o assunto. Também tive dificuldades no começo, mas depois a leitura fluiu bastante. Confesso que depois que li sua resenha, fiquei com vontade de ler novamente. Beijo grande! 😀

  • Lu julho 19, 2015

    Que bom que você gostou, Ju! Tenho muita vontade de ler esse livro e saber que você curtiu é um incentivo.

    Adoro a escrita do Saramago. Escreve lindo, escreve goxtoso. É um baque de início, porque não tem ninguém que escreva assim, mas depois é só amor. Indico que você leia “As intermitências da morte”, que também é muito legal. 🙂

    • Juliana Cirqueira julho 23, 2015

      Oi Lu! Ahh, que honra, hehe. Eu adorei, achei maravilhoso!
      Exatamente o que eu pensei quando estava lendo, todo mundo indica As Intermitência, com certeza lerei! <3
      Beijo grande!